Neste momento a noite toma a sua forma nos contornos da mobília projetando sombras nas paredes. Um pensamento povoa a minha cabeça - Se houvesse um medidor de melancolia, diria que esta hora, ela encontra-se no cume. Principalmente para quem, como eu, já avançando quase os noventa anos, não é mais que uma coadjuvante das cenas intensas da vida.
As gerações mais jovens, de netos, não alcançaram o auge da minha atuação como protagonista. Conhecera-me apenas como doce, meiga, frágil e as vezes impertinente avó.
Por sorte ainda consigo caminhar razoavelmente bem pela casa embora lá fora o corpo já não me permita mais tal desenvoltura. As calçadas, o trânsito agitado e os perigos da cidade grande reforçam a necessidade de me manter resguardada em meu refúgio.
Pelos corredores da casa os sorrisos, os momentos especiais, as imagens de festas e encontros da família seguem-me pendurados nas molduras fixadas nas paredes.
Mas o verdadeiro túnel do tempo encontra-se na gaveta do guarda-roupa, no álbum de papelão grosso, com fotos em preto e branco, já amareladas, presas a pequenas cantoneiras e protegidas por um papel de seda. Sou capaz de ouvir os sons e sentir os cheiros que exalavam naqueles momentos das fotografias
Lá estou eu, cintura finíssima, no vestido de domingo, passeando de braços dados com as minhas melhores amigas. Tem uma a foto de close, que eu gosto, em que estou de costas para o espelho, mostrando bem o corte de meu cabelo tão na moda naquela época. O meu pai e a minha mãe ainda estão lá, pousando para o fotógrafo. Ela, linda, majestosa, muito arrumada, ostentando seu conjunto de colar e brincos de pérolas, sentada numa cadeira estilo colonial. O meu pai, de pé ao seu lado, exibindo um paletó impecável, chapéu na mão, cabelos penteados para trás fixos à base de brilhantina.
Passo horas conferindo nas Fotos a trajetória da minha vida. Volto-me para o espelho que me traz à realidade. Cá estou, a menina Aninha, que cresceu, amadureceu, produziu frutos e sobrevive hoje da colheita destes.

