A tragédia completa hoje, precisamente,
sete dias. O domingo também amanhecera assim, belo, ensolarado e de brisa
suave. Eu ainda estava entregue a preguiça na cama quando alguém bateu palmas
lá fora. Da janela do quarto eu vi um homem desconhecido parado diante do
portão, pus a cabeça para fora e questionei: - Pois não? - O homem me olhou com
uma cara de quem vê alguém familiar e depois de um bom dia retribuído, me fez
uma pergunta que a princípio me pareceu estranha: - A sua cachorrinha está aí? –
Dei uma busca rápida pela casa, nos locais onde ela costuma se deitar e
constatei que não. Voltei e lhe dei a resposta, sem compreender ao certo o que
ele pretendia. A conversa daí em diante tomou o rumo para o esclarecimento: -
Eu vinha passando na avenida principal e vi um cachorro atropelado,
aproximei-me e reconheci que se tratava da sua cachorrinha... Ali em frente à
Lampadinha. – Apressei-me para tomar alguma atitude, sem saber ao certo qual
deveria ser. Mencionei ir urgente verificar se ela estava muito ferida quando o
senhor me olhou nos olhos, com bastante calma e disse: - Não há mais nada que a
senhora possa fazer, eu só vim avisá-la para que não ficasse a vida inteira
esperando que ela voltasse, sem compreender o que aconteceu. – Agradeci-o
profundamente porque ele estava certo, a dor da perda é terrível, mas, a angustia
da espera em vão é mais arrasadora. O
domingo inteiro foi muita tristeza e comoção. As meninas enterraram o corpo da
Gisele Bündchen, ou da minha Gigele, como eu gostava de chamar, no terreno em
frente à nossa casa e colocaram uma cruz indicando o local.
Muita gente, com certeza, não consegue
compreender como é possível alguém sofrer tanto a perda de um animal. Hoje está
cada vez mais difícil encontrar famílias que criam cachorros ou gatos. O espaço
físico e a falta de tempo são os fatores mais justificados. Também é evidente o
numero cada vez mais crescente de animais abandonados, principalmente gatos. As
pessoas, mesmo quando decidem criar algum animalzinho, preferem compra-lo. Elas
têm uma necessidade maior de exibir o pedigree do que de se apegar a um companheiro
ou companheira.
Sempre convivi com animais de estimação,
desde a minha infância e continuei assim juntamente com as minhas três filhas. Embora
eu me reserve de fazer discursos em defesa de criar animais quando percebo a
resistência das pessoas, sempre que posso apresento a minha opinião baseada na
experiência de criar bichinhos com as filhas. Fala-se muito dos perigos de
doenças provocada pelo contato com animais, principalmente para as crianças. Eu
realmente compreendo que isso é verdadeiro, mas nunca aconteceu na minha casa e
já se vai quase meio século de convivência. Atribuo essa realidade aos cuidados
com a higiene e prevenção de doenças como vermes e raiva.
Criar animais, antes de tudo, sempre foi
de grande contribuição para a educação das minhas filhas. Com eles elas
aprenderam valores como cuidar, respeitar, se responsabilizar. Através dos
animais elas desenvolveram também a sensibilidade, a compreensão das vantagens
do carinho e do afeto. Experiências de morte como essa que vivemos agora com a
Gigele, já vivemos algumas outras vezes, de formas diferentes e tenho plena
convicção de que estas contribuem demais para a aprendizagem de conviver com a
condição de morte, iminente a todos os seres vivos.
Assim, sempre que posso estou divulgando
e compartilhando notícias de animaizinhos abandonados, precisando de lar e
carinho. Ajudo a levantar a bandeira de que “um amigo não se compra” e que a
recompensa para quem cria um animal é imensamente gratificante.
Preciso dizer também que pouco antes de Gigele
morrer, apareceu por aqui um cachorro de rua que se apaixonou por ela e ficou
morando na minha calçada. Tobias, este é o nome dele, agora ocupa o vazio que
ela deixou.
(ESSE VÍDEO É DE GIGELE BRINCANDO, OU AGUENTANDO A BRINCADEIRA DO CACHORRINHO QUE AS MENINAS CRIAM NA CASA DO PAI).
