Gente, essa coisa de não poder ajudar aos outros por medo é uma coisa muito louca, mesmo.
Se é terrível constatar o quanto um ser humano pode ser perverso, é mais triste ainda saber que muitos se aproveitam justamente da boa vontade e do espírito solidário do outro.
No caso do episódio que eu contei no post anterior, é verdade que se tratava mesmo de um golpe, não para me assaltar, acredito, mas para levar algum dinheiro e comprar drogas.
Contei a história para muita gente, a fim de que ficassem alertas para as dicas que os policiais me deram. Acabei ouvindo várias histórias semelhantes.
Uma colega me contou que, também pela madrugada, uma senhora chamou em sua porta pedindo ajuda para, segundo ela, pegar o seu neto que estava no hospital. Ela afirmava morar em uma casa naquela mesma rua e demonstrava muita aflição.
Essa colega me disse que chegou a acordar o marido e a abrir o portão para conversar com a tal mulher. Por sorte, uma vizinha acordou e quando perguntada se a conhecia, imediatamente desmentiu a história de se tratava de alguém que morava por ali.
Só nesse instante foi que ela começou a refletir sobre o perigo que poderia estar expondo o seu marido ao acordá-lo para sair no carro com aquela desconhecida, altas horas da madrugada.
Felizmente, voltando para perto da mulher, ocorreu-lhe a ideia de falar que o seu vizinho era policial e que iria pedir a sua ajuda.
Para confirmação da sua suspeita, a tal senhora sumiu com a desculpa de que iria em casa e voltaria logo. Nunca mais voltou.
Soube-se, depois que essa mesma mulher aplicou o mesmo golpe em outro morador daquela vizinhança. Por sorte, já no caminho, ele desconfiou das intenções da mulher ao querer se desviar do trajeto proposto para o hospital, se revelou ser um policial e obrigou-a a descer do carro. Escapou, com certeza de uma emboscada.
Ouvi uma outra historia, desta vez, mais relacionada a falta de assistência publica.
Uma amiga me contou que voltava da faculdade, por volta das seis horas da noite e ao descer do ônibus, acompanhada de outra amiga, deparou-se com uma pessoa caída na beira da calçada.
Aproximando-se, viram que se tratava de um senhor de idade avançada. Conferiram se estava vivo, respirando, constataram que sim. Mas o fato dele estar desacordado e com o corpo quase todo estirado para a parte da rua, onde passavam muitos veículos, causou-lhes a preocupação de que algum carro pudesse passar por cima das suas pernas.
Não vendo nas proximidades, ninguém que pudesse ajuda-las a afastar o corpo e também com o receio do mesmo ter alguma fratura, ou algo que pudesse piorar sendo removido de qualquer jeito, resolveram atravessar até o outro lado da rua onde, coincidentemente, tinha um posto da SAMU.
Ao chegar na recepção, dirigiu-se para uma moça que ali estava e narrou todo o ocorrido. Depois de ouvir tudo, a moça explicou que só podiam atender a pedidos pelo telefone. Sugeriu que fossem até o orelhão que ficava na própria calçada do SAMU e ligassem de lá.
Seria hilária essa situação se não fosse trágica.
Desnorteada, as duas seguiram em direção ao tal orelhão apontado e dá lá fizeram a solicitação de socorro.
O que ouviram do outro lado da linha foi inacreditável. Questionaram se elas haviam cheirado a boca do homem desacordado para verificar se ele havia bebido. Ouvindo a resposta negativa, a tal voz masculina, de imediato diagnosticou o caso e deu o veredito. – Com certeza é um bêbado caído e a gente não perde tempo com isso não!
O chão parecia faltar, disse-me a minha amiga. Elas voltaram para o lugar em que o homem estava caído e alguém já o havia ajudado a levantar-se e ir para um lugar mais seguro.
Depois disso, ela me disse que caiu em um choro descontrolado, sentindo uma miscelânea de sentimentos, “revolta, tristeza, indignação, impotência e uma raiva de si mesma por não saber a quem recorrer para cobrar seus direitos em uma situação como esta”.
Com certeza, cada um de nós já passou por situações como essas onde a única pergunta que cabe ser feita é – Que mundo é esse que estamos vivendo?

