sábado, 4 de maio de 2013

A OUSADIA DE UMA PRISIONEIRA




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Essa história que aconteceu com a minha amiga, poderia muito bem ter sido comigo, considerando vários aspectos que temos em comum, o principal deles, as grades que me aprisionam ficam exatamente ao lado das suas.

Hoje, no início dessa noite, ela cometeu a imprudência de abrir as grades e por alguns instantes ousar acreditar que era uma pessoa livre.

 Bastou poucos segundos para um bandido que passava pela rua fazê-la recobrar a consciência de que o direito à liberdade pertencia a ele. 

Ela havia se descuidado lavando a sua garagem enquanto puxava a água para fora, o rapaz simplesmente parou em uma bicicleta e a fez entregar o que tinha no bolso. Para seu azar, todo um dinheiro que ela havia sacado para pagar uma conta.

Nesse momento, por incrível que pareça surge o sentimento de culpa da própria vítima, ou seja, a culpa era dela por ter ficado fora das grades.
04/05/2013
Ivana Lucena

sábado, 27 de abril de 2013

SOBRE O ATAQUE NEONAZISTA A NORDESTINO – TRISTEZA E REVOLTA.



Sem querer cair na tentação de culpar os pais por tudo o que os filhos fazem, pois bem sabemos que realmente há coisas que fogem do nosso controle, todavia, não posso negar a sensação que tenho de que algo faltou na educação desses rapazes acusados de agredir um nordestino no Rio de Janeiro.

Examinando a imagem de cada um deles, jovens, “bem apanhados”, como se diz no interior do nordeste referindo-se a imagem de rapazes bem tratados; cabeças raspadas; tatuagens com referências ao nazismo e ares de desnorteados, penso: Onde esses meninos realmente se perderam? Que valores foram oferecidos para eles desde pequenos e como esses valores errôneos e preconceituosos encontram brechas para subjugar os valores bons? Se é que um dia foram-lhes ensinados valores como o respeito.

A tristeza de imaginar o que o rapaz nordestino, que por coincidência é daqui do RN, passou nas mãos desses trogloditas, assim como as outras vítimas que eles já fizeram, tende a se ampliar na certeza da impunidade. Hoje eles foram presos. E amanhã? Onde estarão? Não estou sendo pessimista em afirmar com convicção que logo, logo, estarão nas ruas atacando outras pessoas e recrutando mais jovens para essa organização insana de “neonazismo”.

domingo, 14 de abril de 2013

O HOMEM



Essa eu preciso contar. Senão, eu fico engasgada.
Hoje, depois de um almoço entre família e amigos, ficamos num bate-papo embaixo das árvores do terreno em frente a minha casa. De repente vemos passando um cavalo, em passos não muito apressados, com uma corda amarrada ao pescoço.
Chamou-nos a atenção, principalmente o estado de magreza do animal.
Logo atrás dele vinha um senhor que parecia ser seu dono e estava ao seu encalço para leva-lo de volta. Alguém comentou: - Qual será mesmo o animal, dos dois? Referindo-se a maldade de deixar o cavalo magro daquele jeito.
Dentro de pouco tempo vimos o animal retornando. Dessa vez, puxado pelo tal que julgamos ser seu proprietário.
Comentei com o homem: - Conseguiu enfim pegar o fujão, né? Ao que ele me respondeu: - Por causa disso ele vai me pagar, vai passar dois dias sem comer.
Certamente tentei convencê-lo de que isso não estava certo, mas, duvido mesmo que ele tenha me dado ouvido.
Assistindo o caminhar do animal, de cabeça baixa, totalmente indefeso, à mercê do seu dono, veio definitivamente à resposta daquela pergunta:
- O homem era o verdadeiro animal. – No sentido óbvio da sua total irracionalidade.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

PODEMOS COMBATER A VIOLÊNCIA OU SOMENTE ESPERAR QUE “OS OUTROS” (NÃO) FAÇAM?




Dizem que a gente só sabe o que é a dor quando passa por ela.
Discordo. Algumas pessoas realmente não necessitam disso.
Eu, desde ontem, carrego a dor da mãe que teve o filho morto, diante das câmeras de segurança, quando chegava ao portão da sua residência, em São Paulo e entregava ao bandido, o seu celular .  Não posso, é verdade, sentir a dor na intensidade que ela sentiu, mas sou capaz de colocar-me em seu lugar naquele instante em que viu o filho inerte no chão, como ela mesma narrou para os repórteres da tv, e sentir em meu peito a agonia, a aflição e a tristeza que uma mãe sente numa experiência desse nível.
Para completar, hoje, chegando ao meu local de trabalho, a Secretaria de Educação do Estado do RN, deparei-me com o assunto do assalto que ocorreu ontem à noite. Segundo as informações que ouvi, algumas funcionárias foram rendidas e passaram cerca de duas horas sob pressão psicológica exercida pelos bandidos, antes que esses arrobassem caixa eletrônico instalado no prédio.
A banalidade com que se tira a vida humana e a segurança que os nossos representantes políticos são incapazes de nos oferecer leva-nos a um sentimento de impotência e revolta.
O que podemos esperar de uns políticos que depois de eleitos nos envergonha com tantos escândalos de corrupção? Com tanta exposição declarada de egoísmo? Com as revelações constantes das farsas que estavam por trás dos discursos políticos que iludiram aqueles  que os escolheram como seus representares?
Tem que haver alguma coisa que possamos fazer além de ficar como meros expectadores da violência.
Não podemos esperar chegar o dia em que nós mesmos ou nossos filhos, famílias e amigos tornem-se também noticiário de tv.
Devemos buscar a união entre as pessoas, levar para a discussão possibilidades de ações para buscar ajuda e parcerias a fim de tratar esse câncer que já está mais do que escancarado em nosso país.
Não tenho tempo sobrando, mas, tenho consciência de que se não agirmos o nosso tempo será verdadeiramente mais curto.
Estou à disposição para unir-me nessa luta com quem desejar.  Não sei bem o que fazer, mas a gente pensa junto.
Só sei que não podemos mais esperar...



domingo, 10 de março de 2013

GOVERNO E RELIGIÃO – UMA MISTURA PERIGOSA



Há muito questionamos se o Brasil é mesmo um país laico, ou seja, se governo e religião são duas coisas dissociáveis. Vamos lembrar que governo laico é, relativamente, uma proposta nova, ela surgiu com a democracia. Antes disso, a constituição do Império previa que a religião oficial do país seria a Religião Católica. A gente conhece bem esta história.


O que se discute hoje, com relação ao caráter laico do país é, principalmente, a manutenção dos feriados religiosos católicos no calendário oficial do governo. Um questionamento justo, considerando que nenhuma outra religião ou crença tem suas comemorações estendidas oficialmente para todo o país.


É certo que nós brasileiros somos inegavelmente um povo cristão. É bem verdade também que não erámos assim no princípio, mas, aí... Vieram os catequistas. Conhecemos bem esta história, que é um reflexo de toda história de poder que a igreja católica exercia no mundo


Hoje o que se assiste em nosso país é o crescimento exacerbado de igrejas evangélicas. Assim, é obvio que pouco a pouco venhamos observando uma substituição de “católicos por evangélicos” nas representações políticas e nos cargos governamentais.


Esta preocupação reascende com a polêmica gerada em torno da eleição do pastor evangélico e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir a Comissão de Diretos Humanos da Câmara, em Brasília. Várias denuncias surgiram, principalmente pela internet, questionando o caráter do deputado. Inclusive vídeos abomináveis com ele e seus colaboradores transformando a igreja em um verdadeiro mercado.


Não se aplicaria neste caso aquela lição bíblica: "Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores." (João 2:13-16; Mateus 21:12-13)?


Acontece que nem sempre, ou quase nunca se vê em tais representantes religiosos a postura orientada por aquele sábio da galileia e perpetuada nos livros da Bíblia: “Daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22). Ou seja, deveriam entender com esta orientação que temos que cuidar para que realmente as coisas estejam separadas. Mas isso não ocorre.


 Lutar contra isso é uma ação de extrema dificuldade porque muitos deles assumem os cargos justamente comprometidos de pregarem lá os ideais da sua religião ou, pior que isso, “os seus próprios ideais”. Prática que já é bem comum na política brasileira.


Repito aqui o que disse no facebook: “Quando política e religião se misturam, não devemos esperar eficiência. Muito pelo contrário, é uma combinação perigosíssima. Os países dominados por lideres religiosos nos dão o exemplo do que será o Brasil se continuarmos avançando nesse quadro que nitidamente vem se formando atualmente...”


Não queremos ter um país ateu, nem católico, nem evangélico, nem umbandista, nem espírita ou de outra religião qualquer. O que queremos é o direito de cada cidadão fazer as suas próprias escolhas e isso corre o risco de ser impedido se permitirmos a eleição de pessoas radicais. É nisso que devemos estar atento. É contra isso que devemos estar dispostos a lutar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

TROTE, ATÉ ONDE É SAUDÁVEL?


Hoje foi o primeiro dia de aula da minha filha nº 2, na UFRN. 

Sabe como é primeiro dia, aquela expectativa, aquele nervosismo – Não posso me atrasar. – E se eu não acertar a sala? – E se...
Depois do almoço foi toda uma comitiva familiar acompanha-la. Eu, a filha nº 1 e a nº 3.
Quando fui pegá-la no final do horário a sua alegria havia desaparecido.
Confessou haver passado um grande aborrecimento, juntamente com algumas amigas que já havia conseguido na Universidade.
Acontece que elas foram vítimas de um trote realizado por um grupo de veteranos. Mesmo alegando que não gostariam de participar.
Tudo começou, segundo ela me contou, quando o grupo de entrou na sala de aula delas e convidou a turma para um “Tour” pela Universidade.
Ela disse que entraram em um ônibus climatizado e no início todos foram muito gentis, mostrando o Campus e dando orientações como “Seguir as placas de sinalização ao invés de pedir informações para se prevenirem contra brincadeiras de mau gosto dos veteranos”. (*)Quando o passeio terminou,  o onibus deixou os alunos  dentro do Campus. Depois disso, o grupo de veteranos convidaram todos os alunos para seguirem a pé a um local próximo a universidade, a fim de apresentarem-se uns aos outros, para se conhecerem melhor. Chegando ao local,
que depois ela reparou tratar-se de um bar,  todos foram convidados para se acomodarem em umas mesas e cadeiras.
Alguns alunos  beberam nessa hora e depois deram início ao trote.
As brincadeiras começaram com os veteranos pintando as unhas dos calouros. O que já criou um problema quando sujou de esmalte a bolsa de uma das meninas, que não gostou.
A pior parte, segundo a minha filha foi quando as forçaram a segurar umas placas para serem fotografadas. Quando ela olhou para a placa que lhe deram, estava escrito “CALOURA BUCE_ _”. Ela não gostou e pediu que trocasse a placa.
Nesse momento surgiram vaias e gritos e um dos rapazes, com trejeitos afeminados, bradou lá de trás: “ – DESENHA UMA PI _ _ e bota na boca dessa PU _ _”.
Ofendida, ela disse-me que rasgou a plaqueta e falou para a turma que não estava gostando e que não queria participar de nenhuma brincadeira.
O rapaz que a havia agredido com aquelas palavras, não se conteve e soltou uma ameaça dizendo: “ – Se prepare viu, caloura? Que amanhã você não escapa.”
Tentei convencê-la a denunciar o caso para a Universidade, mas, ela está relutante em aceitar fazer isso. Eu entendo que não queira prosseguir adiante com essa história, principalmente porque teme represália quando estiver indo para casa, fora do Campus.
Acontece que não podemos nos calar diante de situações como essa, que para alguns não passa de uma besteira, de uma simples brincadeira que alguém não gostou.
O problema não é esse. O problema é que o direito do outro deve sempre ser respeitado e isso não aconteceu.
Eu que festejei tanto por ter duas filhas na Universidade Pública Federal, temo assistir elas se desestimulando por não encontrar segurança e organização nesse espaço que deveria continuar sendo o celeiro dos grandes profissionais que contribuirão para o crescimento e a evolução do nosso país. 


(*)PS. A parte destacada é uma correção feita no texto original e objetiva esclarecer que a empresa responsável por transportar os alunos no passeio pelo Campus cumpriu responsavelmente o seu trabalho deixando os alunos dentro dos limites da Universidade e que só depois eles seguiram a pé para o local fora do Campus, onde ocorreu o trote.
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